Participação do IDEAC em painel técnico sobre contratos, riscos e inteligência artificial no contexto da engenharia e das controvérsias contratuais.

No 13º encontro da AACE, o IDEAC participou de um painel que conectou três temas cada vez mais centrais para grandes projetos de engenharia: administração contratual, gestão de riscos e inteligência artificial.

O painel foi moderado por representantes da AACE e contou com a participação de Michelle Santiago, Renata Petta Theodoro (coordenadoras de projetos no IDEAC), Tássio Martins, e mediada pela ex presidente da AACE (de 2025) Ilma Trindade, que trouxeram uma visão integrada entre prática contratual, tecnologia e um estudo aplicado ao túnel imerso Santos–Guarujá, o primeiro túnel imerso do Brasil.


Administração contratual e riscos: as bases que sustentam o contrato

Na abertura técnica do painel, Michelle Santiago retomou os fundamentos da administração contratual para, a partir deles, introduzir a discussão sobre riscos e IA.

Ela relembrou que, em essência, um contrato é um acordo entre partes que querem realizar um negócio em comum. Para que esse contrato “fique de pé”, é necessário equilibrar quatro elementos:

  • Escopo

  • Prazo

  • Preço

  • Qualidade esperada

A administração contratual foi apresentada como o processo contínuo de buscar a conformidade entre o que foi combinado e o que está sendo efetivamente executado. Esse processo:

  • começa antes da assinatura (já na fase de edital, carta-convite e proposta);

  • segue ao longo de toda a execução;

  • termina somente com a aceitação formal do objeto contratual.

Michelle destacou que existem componentes mais fixos na administração contratual — como a necessidade de comunicação eficiente e monitoramento permanente de escopo, prazo, custo e qualidade — e componentes mais variáveis, que dependem do perfil de risco de cada empresa.

Empresas consolidadas tendem a buscar negócios mais conservadores; outras, em crescimento, frequentemente assumem riscos maiores para ganhar mercado.

Ela também reforçou que risco não é sinônimo de problema. No contexto de projetos, risco é um evento incerto que pode gerar impacto positivo ou negativo nos objetivos do contrato. Ou seja, risco também pode significar oportunidade — muitas trajetórias de sucesso passam justamente por decisões de risco bem avaliadas.

Foram discutidos diversos tipos de riscos presentes em grandes obras de engenharia:

  • Ambientais (geologia, clima, eventos extremos);

  • Políticos (mudanças de governo, decretos, alterações regulatórias);

  • Sociais e culturais (eventos como Copa do Mundo, eleições, manifestações);

  • Econômicos (variação cambial, inflação setorial, distorções de índices);

  • Operacionais (falhas de equipamentos, problemas de métodos construtivos);

  • De suprimentos (ex.: aumento abrupto de preços e falta de materiais, como visto na pandemia);

  • Tecnológicos (implantação de novos sistemas e soluções não testadas).

No ciclo de gestão de riscos, Michelle sintetizou as etapas principais:

  1. Identificar riscos;

  2. Analisar probabilidade e impacto;

  3. Monitorar a evolução desses riscos;

  4. Mitigar e responder, com planos preparados previamente;

  5. Registrar lições aprendidas, para que a experiência de uma obra gere conhecimento para as próximas.

Ela utilizou a metáfora do “risk toolbelt”: um “cinto de ferramentas” de riscos e respostas que a equipe domina, complementado por um processo estruturado de brainstorming para enxergar o que ainda não está no radar.


Inteligência artificial como aliada na gestão de riscos contratuais

Na sequência, Tássio Martins trouxe o olhar da inteligência artificial aplicada ao cenário atual de projetos:

  • contratos e obras cada vez mais complexos;

  • orçamentos e prazos pressionados para baixo;

  • ambiente de alta competitividade entre empresas, impulsionado por maior acesso à tecnologia.

Esse contexto aumenta significativamente a exposição a riscos — técnicos, contratuais, econômicos e de reputação. É aí que a IA entra como apoio.

De forma simples, Tássio pontuou que as IAs são muito boas em reconhecer e repetir padrões, desde que recebam bom contexto e dados estruturados. Com isso, elas já têm ajudado a:

  • Identificar riscos contratuais

    • A IA analisa contratos novos à luz de um histórico de riscos já conhecidos, apontando cláusulas, condições e particularidades que remetem a problemas vividos em outros projetos.

    • Isso economiza horas de leitura de engenheiros e advogados na fase de análise contratual.

  • Avaliar a estrutura de cronogramas

    • Em vez de descobrir fragilidades somente após um evento de risco, a IA pode apoiar a verificação prévia de coerência e robustez do cronograma — evitando a frustração de descobrir, “na hora H”, que o planejamento não representa a realidade.

  • Auxiliar na redação de documentos técnicos e contratuais

    • A IA é usada como apoio na elaboração de notificações, relatórios e comunicações de administração contratual, sempre com revisão de profissionais experientes.

    • Tássio enfatizou a palavra auxiliar: não se trata de “deixar a IA fazer tudo”.

  • Classificar e priorizar riscos

    • Uma vez definidos critérios claros, a IA consegue classificar riscos de forma rápida e independente de hierarquia, evitando que apenas o “risco do chefe” seja tratado como o mais importante.

  • Monitorar riscos ao longo da obra

    • A partir da integração com documentos produzidos no dia a dia (relatórios, comunicações, registros), a IA pode ajudar a monitorar a evolução dos riscos e distribuir alertas às pessoas responsáveis.

Entre as vantagens imediatas do uso da IA, ele destacou:

  • Velocidade na análise de grandes volumes de dados (em vez de um “exército de estagiários” garimpando papel);

  • Aproveitamento de múltiplos projetos na mesma base de conhecimento, tornando as lições aprendidas mais efetivas;

  • Independência de opinião, reduzindo interferências pessoais na identificação e priorização de riscos.

Mas também reforçou desafios importantes:

  • A IA ainda precisa de revisão, controle e supervisão humana;

  • É necessária mão de obra mais qualificada, capaz de entender tanto o conteúdo técnico quanto o funcionamento da IA;

  • Modelos de IA podem inventar resultados e fontes se não forem bem treinados e testados.

Para fechar, Tássio recorreu à metáfora do “Guia do Mochileiro das Galáxias”, lembrando que a famosa resposta “42” só faz sentido se a pergunta for bem formulada. Do mesmo modo, a IA hoje está intimamente ligada ao que pedimos a ela e a como organizamos nosso banco de dados.

Sem bom contexto, bons prompts e boa governança, a tecnologia não entrega bons resultados — por mais avançada que seja.


Estudo aplicado: o túnel imerso Santos–Guarujá

Encerrando o painel, Renata Petta Theodoro, da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), apresentou um estudo que integra administração contratual, gestão de riscos preditiva e inteligência artificial aplicado ao túnel imerso Santos–Guarujá.

Trata-se do primeiro túnel imerso do Brasil, uma das obras mais complexas do Novo PAC, com:

  • cerca de 1,5 km de extensão, sendo aproximadamente 870 metros submersos, a cerca de 21 metros de profundidade;

  • modelo de Parceria Público-Privada (PPP), em regime de concessão de 30 anos (construção, operação e manutenção);

  • investimento estimado em torno de R$ 6,8 bilhões, somando aportes públicos e privados;

  • participação de grupos com expertise internacional em túneis imersos e infraestrutura marítima.

O estudo combina:

  • conceitos clássicos de administração contratual;

  • abordagem de gestão de riscos preditiva, inspirada em Patrick Lagadec, que vê o risco como resultado das lacunas entre o que se acredita controlado e o que realmente se compreende;

  • uso de IA para identificar brechas e antecipar riscos em múltiplas dimensões:

    • técnica

    • organizacional

    • cognitiva

    • cultural

    • legal

    • ambiental

    • institucional

    • fundiária

    • ESG / climática

A matriz quantitativa de risco apresentada por Renata evidenciou que, para esse empreendimento, os riscos mais críticos não são apenas de engenharia, mas sobretudo:

  • Desapropriações – apontadas como o maior risco, pelo potencial de litígios em áreas densamente ocupadas;

  • Licenciamento ambiental – com forte risco de morosidade institucional;

  • Dragagem e imersão – com relevância geotécnica e hidráulica;

  • Governança contratual e cultural – dado o contexto multinacional e regulatório complexo.

Como resposta, o modelo propõe um arcabouço de governança preditiva integrada, que inclui:

  • Núcleo de Administração Contratual com rastreabilidade total e revisão adaptativa;

  • Sistema de Compliance de Alto Nível, abrangendo aspectos técnico-contratuais, ambientais, fundiários, interculturais e cibernéticos;

  • Central de Inteligência de Risco, baseada em IA, monitorando falhas técnicas e contratuais;

  • Digital twin gerencial e ambiental, simulando diferentes cenários em tempo quase real;

  • Comitê intercultural de governança, articulando parceiros de diferentes países;

  • Painéis executivos de risco (dashboards), com relatórios preditivos para a alta gestão.


Administração contratual + compliance + IA: arquitetura da confiança

A conclusão do painel reforçou uma mensagem central:

  • Administração contratual é o escudo – garante base técnica, documental e probatória;

  • Compliance é o código de honra – assegura integridade, ética e reputação;

  • A IA é a nova camada de inteligência, que amplia a capacidade de prever, monitorar e reagir, sem substituir a responsabilidade humana.

Juntas, essas três camadas formam uma arquitetura de confiança para grandes empreendimentos, permitindo:

  • prevenir riscos antes que virem danos;

  • corrigir desvios sem necessariamente partir para litígios;

  • proteger contratos de interferências indevidas;

  • garantir transparência e legitimidade perante contratantes, contratadas, órgãos de controle e sociedade.

Para o IDEAC, a participação nesse painel da AACE reforça o compromisso da instituição em atuar na fronteira entre engenharia, direito, governança e tecnologia, contribuindo para projetos mais seguros, rastreáveis e sustentáveis.

SÃO PAULO

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